quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

James Anderson



Quem foi James Anderson?

Nada predispunha o Reverendo James Anderson (1679-1739) a se tornar o mais famoso entre os maçons modernos; especialmente não a publicação em 1732 de sua obra-prima: Genealogias reais, ou Tabelas genealógicas de imperadores, reis e príncipes, desde Adão até os dias atuais. Mas  o  acaso quis que ele fosse um dia escrever as “Constituições” de uma associação que, no entanto, tinha muito poucos membros.

Nascido em Aberdeen de um pai vidraceiro (e Maçom aceito na loja operativa local) James Anderson fez os estudos necessáriOS para a ordenação na Igreja da Escócia; mas foi em uma velha paróquia huguenote, em Londres, que ele se tornou, na década de 1710, um pastor presbiteriano. Não está claro até hoje, se em 1717 ele foi um dos maçons aceitos que contribuíram para a formação da Grande Loja de Londres; temos, por vezes, sugerido que ele poderia ter sido iniciado na Escócia, antes de se mudar para Londres.

O caminho para a fama, no entanto, abriu-se para ele em Setembro de 1721, quando, durante uma assembleia geral realizada na presença de oficiais e membros de dezasseis lojas “erros foram revelados nas antigas Constituições Góticas”, ele foi convidado a “realizar as correcções necessárias em uma nova e melhor apresentação”. Três meses depois, quatorze irmãos “educados” foram nomeados para examinar o manuscrito do irmão Anderson.

Em 25 de marco de 1722, durante uma nova sessão da Grande Loja, a História, os Deveres, os Regulamentos e os Cantos de Mestre foram aprovados com algumas alterações  “ao que a [Grande] Loja pediu ao Grão-Mestre que mandasse imprimir”.

Assim, em 17 de Janeiro de 1723, na taverna King’s Arms, dois eventos memoráveis aconteceram: a adesão de Philip, primeiro duque de Wharton ao grão-mestrado de Londres e a apresentação do novo Livro das Constituições.

Nesse dia especial, “A Maçonaria conhecendo a harmonia, a fama e o nome, muitos nobres e cavalheiros de alta linhagem pediram para serem admitidos na Fraternidade, assim como outros homens esclarecidos, comerciantes, membros do clero e trabalhadores, que encontraram na Loja um lugar de relaxamento agradável, longe do estudo, dos negócios e da política”, escreveu Anderson na segunda edição de sua obra, publicada em 1739, ou seja, no mesmo ano em que ocorreu sua morte.

Note-se que neste mesmo 17 de Janeiro de 1723, James Anderson, que havia anteriormente ocupado as funções de Mestre de Loja foi nomeado para o ano em curso Grande Vigilante da Grande Loja de Londres.

Muitas vezes, nos é perguntado por que motivo ele tinha sido convidado, e não outro Irmão, a elaborar as novas Constituições da Ordem. David Stevenson, autor de um estudo sobre o homem, apresenta a ideia de que a escolha teria resultado de uma viagem de John Desaguiliers, um membro influente da Maçonaria londrina a Edimburgo e sua descoberta da Maçonaria Operativa escocesa. Anderson sendo de ascendência escocesa e nascido de pai maçom (além disso, antigo Secretário e Mestre de Loja) teria sido considerado mais qualificado do que qualquer outro para ser promovido a historiador e legislador.

A vida maçónica de James Anderson, no entanto, permanece obscura até hoje. Ignora-se quais actividades específicas ele pode implantar, quais lojas ele pode frequentar; regista-se que pertencia em 1723 à Loja do Chifre, e em 1735 da Loja Francesa, e sua presença em algumas assembleias de Grande Loja, mas isso é tudo…

De sua vida secular, conhecemos pouco fatos precisos. Anderson se casou com uma viúva rica de Londres, que lhe deu um filho e uma filha, mas viveu pobremente  devido ao maus negócios ocorridos na década de 1720. Ele fez, como pastor, alguns sermões que lhe valeram duras críticas, e foi obrigado a mudar de paróquia em 1734, depois de desentendimentos com alguns paroquianos. Em 1731, ele recebeu também do Colégio Marischal, de Aberdeen, um diploma de doutor em teologia.

No ano seguinte, Anderson, cujas primeiras Constituições tinham sido esgotadas, propôs à Grande Loja de Londres, voltando da Inglaterra, uma nova edição, revista e ampliada. Se a primeira consistia de apenas 91 páginas, a segunda teve em sua publicação cerca de  231 – incluindo o nome do autor, acompanhado pelas iniciais D. D. para esclarecer suas credenciais académicas…

Enquanto isso, Anderson tinha dedicado seus talentos literários à elaboração de sua obra sobre as genealogias reais, bem como outros textos como a Unidade na Trindade (1733), Defesa da Maçonaria (1738) – da qual nada há a dizer – Notícias do Eliseu (1739) e História da Casa de Yvery (1742).

James Anderson morreu no final de Maio 1739. De acordo com o jormal The Daily Post, datadO de 02 de junho:

Ontem à noite, foi enterrado em uma cova anormalmente profunda, o corpo do Dr. Anderson, pastor não conformista. […] Ele foi seguido por uma dúzia de maçons que cercaram a sepultura. […] Os irmãos, exibindo grande tristeza, levantaram as mãos, sinalizaram e golpearam três vezes os seus aventais em honra do falecido.

Assim viveu e morreu o autor do Livro das Constituições, o verdadeiro documento de fundação da Maçonaria especulativa moderna.

Autor: Guy Chassagnard

Tradução: José Filardo

domingo, 18 de fevereiro de 2018

A CONSTRUÇÃO EM BRACARA AUGUSTA




A CONSTRUÇÃO EM BRACARA AUGUSTA
O processo construtivo no quotidiano de uma cidade: os agentes e os artesãos
Jorge Manuel Pinto Ribeiro
Maria Manuela Martins
Resumo: Os construtores e artesãos de Bracara Augusta assumiram um papel importante na economia da cidade. Formam um grupo de indivíduos complexo e diversificado, frequentemente invisíveis nas fontes escritas, cuja atividade recuperamos através da Arqueologia. A cidade conheceu, desde muito cedo, e ao longo da sua história, um protagonismo crescente, caracterizado por importantes funções administrativas e religiosas. Este crescimento político gradual foi acompanhado de uma significativa e permanente actividade construtiva, cuja análise nos transporta ao universo da economia, do mundo social do trabalho, da inovação e das modas.
Neste artigo, procuraremos identificar os vários ofícios que estão por detrás desse dinamismo, frequentemente denunciados pelas estruturas e materiais que produziram, apreciaram e/ou adquiriram.

A construção em Bracara Augusta
1. Introdução
Bracara Augusta foi ao longo da época romana e tardo antiga uma cidade dinâmica, praticamente com obras constantes. O nosso propósito é de interrogar as fontes arqueológicas no sentido de identificar os agentes e artesãos responsáveis pela sua construção, chamando a atenção para a sua importância na economia e no quotidiano da cidade. A construção deve ter envolvido um grande número de pessoas, provavelmente organizadas em collegia, dedicadas à produção dos diversos materiais destinados à execução ou manutenção dos edifícios.
Este dinamismo construtivo mantém-se no Baixo Império, onde se destaca a construção da muralha defensiva, mas igualmente remodelações importantes nos grandes edifícios públicos e nas domus da cidade, facto que deveremos relacionar com a promoção de Bracara Augusta a capital da nova província da Gallaecia.
2. O estatuto do artesão na Antiguidade
Os trabalhadores da Antiguidade, frequentemente desprezados pelos textos clássicos, deixaram-nos alguns testemunhos, na primeira pessoa, que revelam o seu orgulho pelo sucesso conquistado através do trabalho. Assim o faz Nonius Datus (MOREL, 2011, p. 202), librator de Saldae, que relata detalhadamente, num cipo (LASSÈRE; GRIFFE, 1997), a sua proeza técnica na correcção do traçado de um aqueduto no norte de África: “[...] quasi reliquendus habebatur [...] ut lucidius meus
circa duc(tum) hoc Saldense pareret [...]”
A temática dos trabalhadores da Antiguidade, tradicionalmente pouco investigada, tem beneficiado nos últimos anos de várias contribuições que chamam a atenção para o papel que estes assumiam na sociedade. Sabemos que os agentes construtivos organizavam-se frequentemente em collegia de artesãos, associações profissionais plurifuncionais (TRAN, 2007, p. 597), identificadas em vários pontos do Império. A este propósito, em Braga conhece-se uma inscrição da época de Cláudio, dedicada a Caius Caetronius Miccio, pelos cidadãos romanos que negociavam em Bracara Augusta (MARTINS et al, 2012, p. 46). Esta inscrição, relacionada com a actividade comercial, é duplamente importante, porque para além de informar sobre a dimensão da cidade como “mercado”, sugere ainda a existência desses collegia.
Trata-se assim de um grupo profissional onde figuram indivíduos com estatutos muito variados, a nível social, jurídico e mesmo no próprio trabalho, alguns imensamente ricos, outros muito pobres (TRAN, 2010, p. 195), que exerciam a sua atividade em espaços específicos das cidades. Eram frequentemente discretos, sendo alguns percecionados através da Epigrafia, de alguns textos literários e sobretudo da Arqueologia, por via das suas realizações.
3. As diferentes categorias de agentes construtivos
3.1 Os arquitetos
Na Grécia, o arquiteto não é visto como um criador de formas, mas sim como um técnico, conforme o sugere a etimologia da palavra: architekton=mestre carpinteiro (GROS, 1983, p. 450). Para Vitrúvio exerciam uma profissão de grande exigência, embora com reduzido peso social, e com pouca retribuição final (TAYLOR, 2006, p. 15), representando apenas um dos elementos do processo construtivo, pois o seu nome muitas vezes nem figurava nos textos (GROS, 1983, p. 432). Deviam assim ser capazes de elaborar a planta de um edifício e de dirigir as suas respetivas obras (VOGLER, 2011, p. 192).
A complexidade e o rigor evidenciado por alguns edifícios comprovam a sua presença em Bracara Augusta. Seria o caso dos edifícios que integravam o forum da cidade, denunciados por um conjunto de grandes bases monumentais encontradas nas proximidades do mesmo, do teatro ou ainda do anfiteatro, entre outros.
A avaliar pela correspondência de Plínio com Trajano (DURÁN FUENTES, 2004, p. 138), o arquiteto era uma figura frequente nas províncias. Numa das suas cartas, Plínio, na qualidade de governador da Bitínia, pede o envio de arquitetos ao imperador, o qual responde que recorra aos arquitetos locais, uma vez que não há província que não os tenha.
3.2 Os machinatores
São os agentes responsáveis pelo desenho e pela construção das máquinas usadas para o levantamento de pesos e deslocação de cargas. Estas tinham várias aplicações possíveis, quer em obra, quer nos cais para movimentar mercadorias. As características próprias de determinadas obras, assim como o peso de certos elementos exigiam a utilização dessas máquinas, cujos modelos mais complexos permitiam o levantamento de pesos de cerca de 11 toneladas, como é o caso do exemplar representado no túmulo dos Haterii (BÉRENGER, 2006, p. 519).
Em Braga, a atividade destes agentes é denunciada pelas marcas de preensão documentadas no grande aparelho usado na construção, visíveis em vários edifícios, como nos muros em opus quadratum do teatro.
3.3 Os agrimensores/ gromatici
Arte fundamental na construção e no urbanismo romano, a agrimensura foi praticada desde muito cedo pelos egípcios, que mediam anualmente as propriedades cujos limites tinham sido apagados pelas cheias do Nilo (MARCOTTE, 2005, p. 150). Era sabedoria de técnicos altamente especializados que, no Baixo Império, recebem por vezes o estatuto de clarissimus.
Esta disciplina constitui um dos fundamentos do Império Romano, associada à delimitação das propriedades rurais, daí encontrarmos centuriações tanto na Península Itálica como no norte de África (GUILLAUMIN, 2005, p. 4). Os seus profissionais reuniam-se em corporações, dividindo-se em quatro grandes categorias: os mensores militares, os mensores imperiais, os mensores dos governos locais e os mensores independentes (CHOUQUER; FAVORY, 1993, p. 256).
O traçado dos aquedutos detetados em Braga foi certamente realizado por agrimensores, que frequentemente eram militares. A sua presença é igualmente deduzida através da identificação dos mecanismos que estão associados à planificação da cidade, designadamente a implantação do seu plano ortogonal, cujos eixos se prolongam no território, definindo o cadastro rural (CARVALHO, 2008, p. 418). 3.4 Os redemptores, structores e outros fabri.
Nesta categoria, englobamos um conjunto de indivíduos, cuja atividade está diretamente envolvida na construção da obra: os redemptores, os structores e todo um conjunto de fabri.
Os redemptores designam os construtores, frequentemente adjudicatários de obras públicas, mas que também assumem obras privadas. Quando necessário formam sociedades, publicani, para concorrer às mesmas. A colaboração com os poderes públicos era frequentemente um meio de enriquecimento e de aumento de prestígio social. Frontino, na sua obra sobre os aquedutos de Roma, indica que os serviços das águas atribuem alguns trabalhos a redemptores (SALIOU, 2012, p. 17). O túmulo de Quintus Haterius Tychichus, situado na Península itálica, revela um desses empreiteiros, que certamente prosperou com a sua atividade, participando na construção de edifícios públicos sob os Flávios, nomeadamente vários arcos de triunfo, o coliseu e um templo (BÉRENGER, 2006, p. 518).
Os structores eram pedreiros associados à construção em alvenaria e ao pequeno aparelho, podendo eventualmente erguer muros em tijolo. Talhavam as pedras, levantavam os muros com argamassa e realizavam o acabamento das juntas.
Por vezes, assimilaram-se aos redemptores, surgindo como responsáveis das obras, situação que se verifica no norte de África (TRAN, 2008, p. 329), onde a Epigrafia  documenta indivíduos que se designam como structores, não sendo explicitamente assinalados como adjudicantes das obras, embora na verdade tivessem esse estatuto.
Tecnicamente inferiores aos canteiros, a sua arte não deixa de exigir uma grande habilidade na escolha do material, na sua colocação e no fabrico da melhor argamassa, elemento chave para aumentar a resistência do aparelho e proporcionar a perpetuitas do conjunto (DESSALES, 2011, p. 44).
O entusiasmo construtivo presente em Bracara Augusta ao longo da sua história exigiu certamente a colaboração de redemptores e de structores, auxiliados por trabalhadores indiferenciados e aprendizes, alguns muito habilidosos, tendo em conta a qualidade dos paramentos preservados e a importância da arquitetura de granito.
É evidente o trabalho de indivíduos conhecedores da matéria-prima local, das suas propriedades e da sua melhor aplicação, saber e experiência acumulados e herdados de tradições mais antigas. Na observação dos muros denotam-se escolhas conscientes, como a colocação específica dos elementos maiores nos embasamentos ou nas zonas mais sensíveis dos paramentos, ou o uso de elementos de tamanho médio nos alçados, de forma a garantir a melhor coesão com a argamassa.
3.5 Os lapidarii
Os canteiros trabalhavam a pedra de forma geométrica, diferentemente dos escultores, que elaboravam os elementos decorativos. O trabalho do grande aparelho pressupõe talhadores muito especializados. Exerciam uma profissão dura e por vezes perigosa. Nas grandes obras da Idade Média, como as catedrais, estes artífices recebiam um salário superior ao dos restantes artesãos e até mesmo um prémio quando as tarefas envolviam subir em andaimes.
Como referimos, a arquitetura de Bracara Augusta é fundamentalmente uma arquitetura de granito, pelo que os trabalhadores da pedra devem ter assumido uma grande importância. Fabricaram os silhares e os elementos em grande aparelho que conferiam imponência e resistência aos grandes edifícios públicos.
Conhecem-se dois canteiros que trabalhariam no território de Bracara Augusta: Reburrinus Lapidarius, referenciado numa inscrição votiva encontrada no concelho de Vizela, datada do século II ou III (REDENTOR, 2011, p. 283) e Marcus Pelcius, associado a uma lápide funerária encontrada no concelho de Viana do Castelo, com cronologia do século I ou II (REDENTOR, 2011, p. 284).
3.6 Os tignarii e pristae
Os carpinteiros de obra construíam os vigamentos dos telhados, mas também os sobrados em madeira, os andaimes e as estruturas provisórias de suporte das abóbadas.
Alguns eram muito especializados, sendo considerados por determinados autores como os verdadeiros heróis anónimos da arquitetura romana (TAYLOR, 2006, p. 187). Alguns pristae, por exemplo, eram exímios no desenho e na armação de cimbres, tarefas que exigiam um conhecimento profundo da tolerância da madeira e dos procedimentos de montagem mais adequados para a construção de arcos ou estruturas abobadadas.
A sua arte seria muito requisitada em Braga, dada a quantidade de telhados e de coberturas em abóbada documentados, bem como devido às grandes necessidades em madeira da construção pública e privada.
3.7 Os scansores
Estes artesãos revestiam os telhados com tegulae e imbrices, o que parece ser norma nas construções bracarenses. A diversidade dos materiais detetados em contexto de escavação parece sugerir o trabalho de uma importante mão-de-obra, possivelmente ligada à produção oleira em geral.
3.8 Os sculptores
Trata-se de um grupo profissional de grande responsabilidade derivada do custo da matéria-prima com que trabalhavam, maior ainda quando se tratava de pedra importada.
Com efeito, um simples erro de talhe podia levar à inutilização de todo o bloco trabalhado (MAR, 2008, p. 183).
Foram detetados em Braga cerca de 350 elementos arquitetónicos, que
representam, naturalmente, apenas uma pequena amostra das obras realizadas.
Algumas peças exibem um trabalho muito elaborado, revelando a participação de artesãos experientes. Na verdade, a realização em granito de elementos pensados para um material mais fácil de trabalhar comprova a existência de uma mão-deobra conhecedora dos modelos clássicos, mas também suficientemente experiente e habilidosa para aplicá-los ao granito.
3.9 Os tesselarii
Os mosaicistas aplicavam tesselas de natureza variada sobre um suporte fresco, criando composições decorativas que ornamentavam os pavimentos. Esta tarefa, longa e delicada, podia implicar a participação de equipas formadas por distintos indivíduos:
·        o calcis coctor, que preparava a cal;
·        o pavimentarius, que preparava o suporte;
·        o pictor imaginarius, que propunha o desenho;
·        o pictor parietarius, que o aplicava no solo ou parede;
·        o musearius, que colocava as peças nas composições mais delicadas;
·        o tesselarius que se encarregava das partes a priori mais simples.
Os mosaicistas raramente assinavam as suas obras mas são identificáveis através das suas produções. Bracara Augusta exibe mosaicos em vários locais, designadamente nas habitações privadas e espaços termais. São composições de vários tipos, revelando, em alguns casos, artistas bastante experientes, que estariam presentes na cidade no Alto Império, mas igualmente nas épocas mais tardias, a avaliar pelos mosaicos que ornamentam os pisos das construções dos séculos III, IV e posteriores.
3.10 Os pictores
Os pintores, frequentemente itinerantes, veiculavam as modas da época, primeiramente apreciadas em Roma e na Península Itálica. Tal como os mosaicistas, não tinham por hábito assinar as suas obras. Em Pompeia, por exemplo, conhece-se apenas uma exceção numa pintura do biclínio da domus de Octavius Quartio, situada no quarteirão do anfiteatro (SAURON, 2011, p. 66), onde se pode ler Lucius pixit. Esta arte era bastante exigente em mão-de-obra, quer para a elaboração dos níveis preparatórios para a pintura a fresco sobre os muros, quer para a preparação das próprias pinturas. No Baixo–Império, seria essencialmente escrava (VOGLER, 2011, p. 193). No que diz respeito às retribuições,  as fontes indicam que os indivíduos que elaboravam as composições eram melhor pagos do que aqueles que as aplicavam nas paredes.
Em Braga sabemos da existência destes artesãos através dos vestígios das suas obras, que funcionavam como uma pele que decorava e protegia as paredes de algumas domus da cidade, bem como de edifícios públicos, como o teatro.
3.11 Os figuli
Os oleiros fabricavam as cerâmicas, mas igualmente as telhas e tijolos tão necessários na construção. Contrariamente aos artistas anteriores, alguns destes trabalhadores são identificáveis por via da sua assinatura nas peças que produziram, ou então pelos seus cognomes, informando sobre a sua atividade, tais como uns indivíduos da gens Licinia que exibem os cognomina imbrex e tegula (MOREL, 2011, p. 209).
A grande quantidade de materiais cerâmicos exumados nas escavações é reveladora da importância desta atividade, que deve ter constituído um dos polos de desenvolvimento da cidade. Algumas marcas poderão estar associadas a fabricantes ou a proprietários de oficinas. É o caso das marcas Camalus e Saturninus, associadas à produção de tegulae, material fácil de fabricar mas delicado de transportar e manipular, dado o seu peso e fragilidade. Publius Domitius, Octavius, Bassus e Lucretius, cujas marcas foram identificadas em lucernas (MORAIS, 2005, p. 366), ou ainda os indivíduos representados pelos genitivos Piri e Sabini e pela abreviatura SIL (MORAIS, 2005, p. 86), podem eventualmente ter fabricado materiais de construção. O seu local de trabalho seria a própria cidade e as cercanias da mesma, conforme o comprovam os quatro fornos descobertos até aos dias de hoje.
 No entanto, parece admissível considerar que o fabrico de tégulas e ímbrices, destinado às coberturas dos telhados, pudesse ocorrer nos estaleiros das obras, tendo em conta o peso destes materiais e os seus elevados custos de transporte.
3.12 Os ferrarii e plumbarii
Os artesãos que dominavam a arte do fogo tinham um papel importante na construção, fabricando a componente metálica das ferramentas, assim como os vários elementos de fixação. Pascale Chardron-Picault (2011, p. 156) descreve o trabalho de equipas com dois ou três homens, em espaços reduzidos, trabalhando na penumbra, de modo a controlar a fusão dos metais, em lojas viradas para a rua. Oficinas maiores e mais exigentes, dependendo de grandes fornos, por exemplo, e bastante mais poluentes, deveriam localizar-se preferencialmente nas periferias dos centros urbanos.
A presença destes artistas em Braga é revelada pela descoberta em vários locais de cadinhos associados ao trabalho do ouro e do bronze. Estes elementos sugerem a presença de oficinas nas proximidades do forum, em contextos datáveis da primeira metade do século I, trabalhando e vivendo em espaços simples, realizados muito provavelmente com materiais perecíveis (MARTINS et al, 2012, p. 45).
No entanto, é presumível que as oficinas metalúrgicas se situassem na periferia da cidade, uma das quais poderá ter tido como proprietário Titus Satrius, cujo nome se encontra identificado, juntamente com o de dois escravos (Agathopous e Zethus), numa estela decorada com ferramentas que parecem estar relacionadas com o trabalho do metal (MARTINS et al, 2012, p. 55).
Estes artesãos colaborariam igualmente no programa decorativo da cidade, designadamente na produção de estatuária, como o comprova uma pata de cavalo em bronze, pertencente a uma monumental estátua equestre, descoberta na domus das Carvalheiras, mas que originalmente deveria estar colocada no forum da cidade.
Os plumbarii trabalhavam o chumbo, fabricando nomeadamente os tubos que constituíam os sifões dos aquedutos ou ainda aqueles que integravam a rede de abastecimento de água das cidades. Esta atividade muito antiga, de grande exigência técnica, encontra-se associada ao labor de artesãos altamente especializados. A produção de fistulae aquariae, por vezes de grande diâmetro, bem como a sua colocação, dado o peso e fragilidade dos elementos, são improváveis sem um domínio desse material. De referir também que, na Antiguidade, não existiam as ferramentas que temos hoje para aquecer e soldar o chumbo. Por outro lado, para além do fabrico dos canos, cabiam a estes artesãos igualmente tarefas de manutenção da rede. Com efeito, estes tubos eram submetidos a pressões de água muito elevadas, podendo levar à sua explosão, pelo que era necessário proceder a frequentes reforços da zona das soldas/ juntas ou mesmo à substituição das peças (VOGLER, 2011, p. 195).
Os plumbarii estão documentados em Braga desde muito cedo, conforme o comprova uma fistula descoberta na zona arqueológica das Carvalheiras (Figura 3), associada à adução de água, necessária ao funcionamento de um balneum, construído no século II, no quadrante noroeste da anterior domus. A peça descoberta exibe uma inscrição que nos remete para o nome do seu fabricante, ou talvez do proprietário da oficina: Titus Flavius Graptus F(ecit). Existiriam assim oficinas dedicadas ao trabalho do chumbo, provavelmente localizadas fora do centro urbano, tendo em conta os espaços que exigiam para armazenar os materiais. Mesmo se a história não reteve o nome de todos eles, se considerarmos a quantidade de espaços termais descobertos em Bracara Augusta, deviam ser muitos os artesãos e os aprendizes associados ao trabalho do chumbo que laboravam na cidade.
3.13 Os metallarii
O termo metallarii designa tanto os trabalhadores das minas como aqueles que operavam nas pedreiras. De qualquer modo, ambos executavam um trabalho árduo e perigoso. Na pedreira eram realizadas várias tarefas, desde a extração dos blocos, o corte da pedra, da responsabilidade dos serrarii, um primeiro desbaste da mesma, ao seu
transporte.
A análise dos granitos que integram os vários edifícios estudados em Bracara Augusta permitiu a individualização de pelo menos cinco variantes desta matéria-prima, o que implicaria a existência de várias pedreiras em atividade, algumas delas em simultâneo, escolhidas de acordo com a variabilidade da sua cor e maior ou menor adequação dos vários tipos de granito às obras. Associada à exploração das pedreiras temos que considerar igualmente uma mão-de-obra importante, que contemplaria certamente numerosos escravos.
3.14 Os vitriarii
Uma publicação recente de Pascal Vipard (2009) indica-nos que os fabricantes de vidros para a construção encontram-se documentados no mundo romano desde o século I. Trata-se de artistas notáveis, que produziam um material nobre, raro e caro, demonstrando mais uma vez o gosto dos romanos pelo desafio técnico. A sua utilização na construção está fortemente ligada à iluminação das salas dos espaços termais, o que era garantido por janelas com caixilharia de vidro, tendo estas sido aplicadas igualmente em alguns edifícios públicos e nas casas mais luxuosas, embora com muito menor frequência.
Estes artesãos estão documentados em Bracara Augusta desde as primeiras décadas de vida da cidade, onde são atestados por diversas oficinas e pelos vidros de janelas recolhidos em algumas escavações, nomeadamente nas termas do Alto da Cividade e nas zonas arqueológicas das Carvalheiras e das Cavalariças. Estes indivíduos trabalhariam em oficinas localizadas na periferia da malha urbana, como na da Casa do Poço (séc. I/II), na zona do Fujacal, na rua de S. Geraldo (estas duas com cronologia mais tardia, entre os séculos III-V, com Mário Cruz a sugerir que poderiam pertencer a um bairro artesanal de produção de vidro, com várias oficinas) ou ainda no antigo quarteirão dos CTT, onde foi identificada uma oficina com dois fornos, que laborou entre os séculos IV e V (MARTINS et al, 2012, p. 55, 60).
3.15 Os Aquarii/ aquae libratores
Estes especialistas eram engenheiros topógrafos, muitas vezes militares, que elaboravam o encaminhamento da água desde as nascentes às cidades. São os artífices da hidráulica, conhecedores da arte de construção dos aquedutos e das fórmulas de cálculo da pendente da água nas condutas. Tal como indica Chantal Vogler (2011, p. 195) “esses cálculos não eram fáceis de realizar, exigindo o recurso à trigonometria e ao teorema de Pitágoras, além de que o zero e a vírgula ainda não tinham sido inventados pelo que era impossível recorrer à álgebra”. Estudos recentes (CHANSON, 2002, p. 43) demonstram que esses indivíduos possuíam conhecimentos hidráulicos muito avançados e que eram capazes de implementar sistemas muito sofisticados, comportando barragens, bacias de regulação e poços de limpeza e arejamento, para além de diversos dispositivos que permitiam conduzir a água às cidades e distribuí-la para diferentes fins.
Desconhecemos os nomes dos engenheiros hidráulicos que trabalharam em Braga.
No entanto os vários aquedutos que abasteceriam a cidade, documentados por referências escritas  bem como pela Arqueologia (MARTINS; RIBEIRO, 2012, p. 16), que evidenciam técnicas distintas e complexas (aquedutos subterrâneos, aquedutos subaéreos, tecnologia
de sifões, bacias de decantação) são prova da sua presença e proeza técnica.
De referir que os revestimentos internos destas construções, em opus signinum hidrófugo, detetados, por exemplo, no aqueduto da colina do Alto da Cividade (MARTINS; RIBEIRO, 2012, p. 20), exigiam capacidades técnicas particulares, apenas realizáveis por trabalhadores habilidosos e conhecedores da arte (CHARDRON-PICAULT, 2011, p. 159).
3.16 Outros agentes
Para além das profissões citadas haverá que considerar toda uma série de indivíduos cuja atividade está de perto ligada ao setor da construção. Entram nessa categoria os vários tipos de transportadores (carpentarii, lenuncularii, raedarii), os madeireiros (tignarii), que  D. Rodrigo da Cunha (1634) refere um aqueduto que abasteceria a cidade romana, captando a água de uma das nascentes do rio Ave. Jerónimo Contador de Argote (1732-34) refere igualmente a existência de aquedutos que abasteciam a cidade romana.
Laboravam nas florestas, mas também, com maior incidência no Baixo Império, uma série de trabalhadores ligados a tarefas de demolição, recuperação e reutilização. Com efeito, alguns dos sítios estudados revelam, à semelhança daquilo que é proposto para outras cidades (CHARDRON-PICAULT, 2011, p. 158), evidências do desenvolvimento da prática de reutilização de elementos em pedra, designadamente arquitetónicos e decorativos, que deve ter levado à formação de um grupo de indivíduos especializados nesse domínio.
3.17 A população dos construtores. Origens e estatutos
Sabe-se hoje que a atividade construtiva englobava cerca de 20% da mão-de-obra urbana e que assumiu um papel marcante na economia do Império (DANIELSDWYER, 2000, p. 22). Em Braga, a população dedicada à atividade da construção seria maioritariamente formada pela população indígena e pelos seus descendentes, com um papel de destaque das elites, que constituiriam os principais encomendadores das obras. Alguns, à semelhança daquilo que parece verificar-se no comércio,  poderão ter enriquecido por essa atividade, atingindo cargos políticos ou religiosos de alguma importância. A Epigrafia bracarense revela uma forte componente indígena na formação do corpo cívico da cidade, alguns deles promovidos à cidadania romana, originários da região de Braga ou de outras cidades da Hispânia, que podem ter estado relacionados com esta atividade económica. Os libertos, alguns públicos, formariam também parte do grupo dos artesãos. Igualmente numerosos seriam os escravos, documentados pela Epigrafia, que laborariam nas várias oficinas e obras, bem como nas pedreiras.
4. Elementos conclusivos
Os trabalhos arqueológicos realizados em Braga nos últimos 40 anos evidenciam, desde a fundação da cidade, a atividade de agentes construtivos e artesãos, alguns dos quais com oficinas instaladas na área urbana ou na sua periferia, herdeiros de tradições mais antigas, que ajudam a divulgar as modas construtivas e os modelos arquitetónicos provenientes de Roma.
De facto, a Arqueologia regista a presença na cidade, em todas as épocas, de uma mão-de-obra qualificada e diversificada, com diferentes graus de especialização, correspondendo naturalmente a desiguais condições de vida e de trabalho. A construção representaria uma das atividades mais dinâmicas da cidade, empregando uma grande parte da população, com picos nas épocas de monumentalização da urbe, designadamente entre a época flávia e antonina, quando são construídas várias termas públicas, o teatro e o anfiteatro, ou no Baixo Império, quando é construída a muralha defensiva e são remodelados vários edifícios públicos e privados. Estamos assim perante uma atividade que teria uma repercussão importante na economia de Bracara Augusta.
Alguns aspetos desta atividade seriam regulamentados pela administração, como a atribuição das obras públicas, através de contratos estabelecidos com os redemptores, ou ainda a produção de materiais de construção, como os tijolos ou os tubos de chumbo. No entanto, grande parte dos trabalhos e especialidades necessárias ao processo construtivo seriam desenvolvidos no âmbito de atividades privadas, cujos moldes de funcionamento nos escapa por completo.
Construtores, artistas e todo um conjunto de artesãos distintos formavam um grupo muito ativo que contribuiu para o desenvolvimento de Bracara Augusta e animava o quotidiano da cidade e do território, pois era dele que chegava grande parte das matérias-primas necessárias para a construção. Quer a presença dos agentes ligados ao
processo construtivo, quer as suas realizações descobertas pela Arqueologia comprovam o poderio económico de Bracara Augusta e de alguns dos seus habitantes.


In: Romanitas – Revista de Estudos Grecolatinos, n. 6, p. 73-87, 2015. ISSN: 2318-9304

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Baruch Espinoza



Baruch Espinoza

Nascimento - 24 de Novembro de 1632, Amesterdão, Países Baixos
Morte - 21 de Fevereiro de 1677 (44 anos), Haia, Países Baixos, Nacionalidade holandesa
Ocupação: filósofo
Magnum opus -   Ética
Tractatus Theologico-Politicus
Escola/tradição:Panteísmo naturalista, espinozismo (fundador), racionalismo, eudemonismo, cartesianismo
Principais interesses: ética, metafísica, teoria do conhecimento, teologia, Lógica
Ideias notáveis: conatus, interpretação histórico-critica da Bíblia
Religião-nenhuma

Foi um dos grandes racionalistas e filósofos do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente a René Descartes e Gottfried Leibniz. Nasceu em Amesterdão, nos Países Baixos, no seio de uma família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno.

Chamado pelos pais de Bento, chamou-se "Baruch" enquanto que judeu nascido e vivendo em Amesterdão. Finalmente, utilizou Benedictus para assinar a sua Ethica, depois do chérem, em seu nome. Também é conhecido como Benedito Espinoza.

Vida
A sua família fugiu da Inquisição de Portugal. Foi um profundo estudioso da Bíblia, do Talmude e de obras de judeus como Maimónides, Ben Gherson, Ibn Ezra, Hasdai Crescas, Ibn Gabirol, Moisés de Córdoba e outros. Também se dedicou ao estudo de Sócrates, Platão, Aristóteles, Demócrito, Epicuro, Lucrécio e também de Giordano Bruno. Ganhou fama pelas suas posições opostas à superstição (a sua frase Deus sive natura, "Deus, ou seja, a Natureza" é um conceito filosófico, e não religioso), e ainda devido ao fato de a sua ética ter sido escrita sob a forma de postulado e definições, como se fosse um tratado de geometria. O banimento, que foi escrito em português
Em 27 de Julho de 1656, a Sinagoga Portuguesa de Amesterdão puniu Espinoza com o chérem, o equivalente hebraico da excomunhão católica, pelos seus postulados a respeito de Deus em sua obra, defendendo que Deus é o mecanismo imanente da natureza, e a Bíblia, uma obra metafórico-alegórica que não pede leitura racional e que não exprime a verdade sobre Deus.

O banimento
“Os Senhores do Mahamad [Conselho da Sinagoga] fazem saber a Vosmecês: como há dias que tendo notícia das más opiniões e obras de Baruch de Spinoza procuraram, por diferentes caminhos e promessas, retirá-lo de seus maus caminhos, e não podendo remediá-lo, antes pelo contrário, tendo cada dia maiores notícias das horrendas heresias que cometia e ensinava, e das monstruosas acções que praticava, tendo disto muitas testemunhas fidedignas que deporão e testemunharão tudo em presença do dito Spinoza, coisas de que ele ficou convencido, o qual tudo examinado em presença dos senhores Hahamim [conselheiros], deliberaram com seu parecer que o dito Spinoza seja heremizado [excluído] e afastado da nação de Israel como de fato o heremizaram com o Herem [anátema] seguinte:
"Com a sentença dos Anjos e dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e com o consentimento de toda esta Congregação, diante destes santos Livros, nós heremizamos, expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos Baruch de Spinoza [...] Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito seja em seu entrar [...] E que Adonai [Soberano Senhor] apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que ninguém lhe pode falar pela boca nem por escrito nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo tecto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele."

Conforme Will Durant, seu chérem pelos judeus de Amesterdão, tal como ocorrera com as atitudes que levaram à retratação e posterior suicídio de Uriel da Costa em 1647, fora como que um gesto de "gratidão" por parte dos judeus para com o povo holandês.

Embora os pensamentos de da Costa não fossem totalmente estranhos para o judaísmo, vinham contra os pilares da crença cristã. Os judeus, perseguidos por toda Europa na época, especialmente pelos governos ibéricos e pelos governos luteranos alemães, haviam recebido abrigo, protecção e tolerância dos protestantes de inspiração calvinista dos Países Baixos e, assim, não poderiam permitir, no seio de sua comunidade, um pensador tido como herege.

Pós-chérem
Após o chérem, adoptou o primeiro nome "Benedictus" (termo latino para "Bendito", que era a tradução do seu nome original "Baruch"), assim atestando seu desvinculo da religião judaica.

Para sua subsistência, trabalhava com polimento de lentes durante os períodos em que viveu em casas de famílias em Outerdek (próximo a Amesterdão) e em Rijnsburg, tendo recusado várias oportunidades e recompensas durante sua vida, incluindo prestigiosas posições de ensino (foi convidado a ensinar na Universidade de Heidelberg mas recusou, pois teria de arcar com as normas ideológicas da universidade e seria impossível continuar com a sua obra de forma independente.). Nesta última localidade, escreveu suas principais obras.

Uma vez que as reacções públicas ao seu Tratado Teológico-Político não lhe eram favoráveis, absteve-se de publicar seus trabalhos. A Ética foi publicada após sua morte, na Opera Postuma editada por seus amigos.

Morte
Morreu num domingo, 21 de Fevereiro de 1677, aos quarenta e quatro anos, vitimado pela tuberculose. Morava então com a família Van den Spyck, em Haia. A família havia ido à igreja e o deixara com o amigo doutor Meyer. Ao voltarem, encontraram-no morto. Encontra-se sepultado no pátio da Nieuwe Kerk, em Haia, nos Países Baixos.

Traços físicos
Conforme Colerus, que o conheceu em Rijnsburg, Spinoza "era de mediana estatura, feições regulares, pele cor de oliva, cabelos pretos e crespos, sobrancelhas negras e bastas, denunciando claramente a ascendência de judeus Sefardim ou sefarditas (originalmente naturais da Península Ibérica). No trajar muito descuidado, a ponto de quase se confundir com os cidadãos da mais baixa classe".

Reconhecimento
Suas obras o fizeram reconhecido em vida, tendo recebido cartas de figuras proeminentes como Henry Oldenburg da Royal Society; do inventor alemão Ehrenfried Walther von Tschirnhaus; do cientista holandês Huygens; de Leibnitz; do médico Louis Meyer, de Haia; e do rico mercador De Vries, de Amesterdão. Luís XIV lhe ofereceu uma larga pensão para que Spinoza lhe dedicasse um livro. O filósofo recusou polidamente.

O príncipe de Condé, na chefia do exército da França que invadira a Holanda, novamente convidou-o a aceitar uma pensão do rei da França e ser apresentado a vários admiradores. Spinoza, desta vez, aceitou a honraria, mas se viu em dificuldades ao retornar a Haia, por causa dessa suposta "traição". Porém, logo o povo, ao perceber que se tratava de um filósofo, um inofensivo, se acalmou.

O monumento feito em homenagem a Spinoza em Haia foi assim comentado por Renan em 1882:

“Maldição sobre o passante que insultar essa suave cabeça pensativa. Será punido como todas as almas vulgares são punidas — pela sua própria vulgaridade e pela incapacidade de conceber o que é divino. Este homem, do seu pedestal de granito, apontará a todos o caminho da bem-aventurança por ele encontrado; e por todos os tempos o homem culto que por aqui passar dirá em seu coração: Foi quem teve a mais profunda visão de Deus.”

O retrato de Spinoza foi impresso nas antigas notas de 1000 florins dos Países Baixos, até a introdução do euro, em 2002.

Obra
a) Publicados "post mortem":

Escritos em latim:

Ética demonstrada à maneira dos geômetras (Ethica Ordine Geometrico Demonstrata) - iniciado em Rijnsburg e finalizado em Haia em 1675;
Conteúdo:
Primeira parte: Deus
Segunda parte: A natureza e a Origem da Mente.
Terceira parte: A Origem e a Natureza dos Afitos.
Quarta parte: A Servidão Humana ou a Força dos Afitos.
Quinta parte: A Potência do Intelecto ou a Liberdade Humana.
Tratado Político (Tractatus Politicus), depois incluído na Ética; 1677
Tratado sobre o Cálculo Algébrico do Arco-Íris, 1687
Tratado sobre o Cálculo das Probabilidades, 1687
Compêndio de Gramática da Língua Hebraica, inacabado.
Escritos em holandês:
Breve tratado de Deus, do homem e do seu bem-estar (Korte Verhandeling van Deus, de Mensch en deszelvs Welstand) (foi um esboço da Ética); 1660

b) Publicados

Tratado sobre a Reforma do Entendimento (De Intellectus Emendatione) - Ensaio. Também publicado na língua portuguesa com os títulos: Tratado para Emendar o Intelecto (Editora Unicamp), Tratado da Reforma da Inteligência (Editora Martin Fontes), Tratado da Reforma do Entendimento (Editora Escala) e Tratado sobre a Correcção do Intelecto (Acrópolis Filosofia), 1662.
Princípios da Filosofia de Descartes, publicado junto com seu apêndice Pensamentos Metafísicos. Espinosa revela seu afastamento cada vez maior em relação a várias teses de Descartes, embora pareça apenas servir-se do cartesianismo para refutar a escolástica. 1663.
Tratado Teológico-político (Tractatus Theologico-Politicus), 1670

Conteúdo filosófico
Espinosa defendeu que Deus e Natureza eram dois nomes para a mesma realidade, a saber, a única substância em que consiste o universo e do qual todas as entidades menores constituem modalidades ou modificações. Ele afirmou que Deus sive Natura ("Deus ou Natureza" em latim) era um ser de infinitos atributos, entre os quais a extensão (sob o conceito actual de matéria) e o pensamento eram apenas dois conhecidos por nós.

A sua visão da natureza da realidade, então, fez tratar os mundos físicos e mentais como dois mundos diferentes ou submundos paralelos que nem se sobrepõem nem interagem mas coexistem em uma coisa só que é a substância. Esta formulação é uma solução muitas vezes considerada um tipo de panteísmo e de monismo, porém não por Espinosa, que era um racionalista e, por extensão, se teria um acompanhamento intelectual do Universo, como define ele em seu conceito de "Amor Intelectual de Deus".

Espinosa também propunha uma espécie de determinismo, segundo o qual absolutamente tudo o que acontece ocorre através da operação da necessidade, e nunca da teleologia. Para ele, até mesmo o comportamento humano seria totalmente determinado, sendo então a liberdade a nossa capacidade de saber que somos determinados e compreender por que agimos como agimos. Deste modo, a liberdade para Espinosa não é a possibilidade de dizer "não" àquilo que nos acontece, mas sim a possibilidade de dizer "sim" e compreender completamente porque as coisas deverão acontecer de determinada maneira.

A filosofia de Espinosa tem muito em comum com o estoicismo, mas difere muito dos estoicos num aspecto importante: ele rejeitou fortemente a afirmação de que a razão pode dominar a emoção. Pelo contrário, defendeu que uma emoção pode ser ultrapassada apenas por uma emoção maior. A distinção crucial era, para ele, entre as emoções activas e passivas, sendo as primeiras aquelas que são compreendidas racionalmente e as outras as que não o são.

Substância
Para Espinoza, a substância não possui causa fora de si, ela é causa de si mesma, ou seja, uma causa sui. Ela é singular a ponto de não poder ser concebida por outra coisa que não ela mesma. Por ser causa de si, a substância é totalmente independente, livre de qualquer outra coisa, pois sua existência basta-se em si mesma. Ou seja, a substância, para que o entendimento possa formar seu conceito, não precisa do conceito de outra coisa. A substância é absolutamente infinita, pois se não o fosse, precisaria ser limitada por outra substância da mesma natureza.

Pela proposição VI da Parte I da Ética, ele afirma: "Uma substância não pode ser produzida por outra substância", portanto, não existe nada que limite a substância, sendo ela, então, infinita. Da mesma forma, a substância é indivisível, pois, do contrário, ao ser dividida ela, ou conservaria a natureza da substância primeira, ou não. Se conservasse, então uma substância formaria outra, o que é impossível de acordo com a proposição VI; se não conservasse, então a substância primeira perderia sua natureza, logo, deixaria de existir, o que é impossível pela proposição 7, a saber: "à natureza de uma substância, pertence o existir". Assim, a substância é indivisível.

Assim, sendo da natureza da substância absolutamente infinita existir e não podendo ser dividida, ela é única, ou seja, só há uma única substância absolutamente infinita ou Deus.

Apesar de ser denominado Deus, a substância de Espinoza é radicalmente diferente do Deus judaico-cristão, pois não tem vontade ou finalidade já que a substância não pode ser sem existir (se pudesse ser sem existir, haveria uma divisão e a substância seria limitada por outra, o que, para Espinoza, é absurdo, como foi explicado no parágrafo anterior). Consequentemente, o Deus de Espinoza não é alvo de preces e menos ainda exigiria uma nova religião.

Natureza Humana
Baruch Espinoza viveu em um tempo onde recebeu diferentes influências, um tempo de transição, que marcava o início da modernidade. O filósofo teve que ser cauteloso na exposição de seu pensamento, porque muitos de seus colegas sofreram perseguição e foram até mortos. Para Espinoza, Deus e a natureza são uma coisa só, não havendo distinção entre eles. Essa concepção exclui ideias transcendentais e entra em choque com os que acreditam no direito divino para os reis, bem como com Direitos naturais hereditários. Seu caráter Naturalista exclui a ideia Dualista de que haveria uma maneira natural de como as coisas deveriam ser. Muitos pensadores acreditavam que as coisas deveriam ser da maneira que são pela vontade de Deus: essa é uma diferença importante no pensamento de Spinoza.

O filósofo começa a expor seu pensamento acerca da natureza humana no livro Tratado Teológico-político. Nele, o autor explica como acredita que funcionam as economias dos Afectos e Desejos e de que maneira isso afeta como vivemos. No capítulo XVI/3, encontramos um exemplo: "O direito natural e cada homem definem-se, portanto, não pela razão sã, mas pelo desejo e pela potência. Ninguém, com efeito, está determinado a se comportar conforme as regras e as leis da razão; ao contrário, todos nascem ignorantes de todas as coisas e a maior parte de suas vidas transcorre antes que possam conhecer a verdadeira regra da vida e adquirir o estado de virtude, mesmo que tenham sido bem educados. E eles não são menos obrigados a viver e a se conservar, nessa espera, pelo simples impulso do apetite, pois a natureza não lhes deu outra coisa, e lhes recusou a potência actual de viver conforme a recta razão; logo, considerando submetido apenas ao império da natureza, tudo o que um indivíduo julgar como lhe sendo útil, seja pela conduta da razão seja pela violência de suas paixões, é-lhe permitido desejar, em virtude desejar, em virtude de um soberano direito de natureza e tomar por qualquer via que seja, pela força, pela artimanha, por preces, enfim, por meio mais fácil que lhe pareça. Consequentemente, também ter por inimigo aquele que quiser impedi-lo de se satisfazer".

Mais adiante, Spinoza vai argumentar que o uso da Razão viria a partir de um exercício, mas que ainda estamos longe de chegar lá devido às Paixões. O autor disserta: "Mas falta muito para que todos se deixem facilmente se conduzir apenas pela razão; cada um se deixa levar por seu prazer e, mais amiúde, a avareza, a glória, a inveja, o ódio etc. ocupam a mente, de tal sorte que a razão não tem qualquer lugar".

No ano de sua morte, Spinoza termina um outro livro, que seria uma continuação do anterior, dando sequência a seus pensamentos e sua teoria. No Tratado Político (Espinosa), título do novo livro, Espinosa também aborda, em diferentes momentos, a questão da natureza humana, bem como a força das paixões e os efeitos que elas produzem nos corpos. Logo no primeiro capítulo, o autor explica de que maneira ele tenta entender essas paixões e estudá-las, a fim de aplicá-las na sua teoria: "Quando, por conseguinte, apliquei o ânimo à política, não pretendi demonstrar com razões certas e indubitáveis, ou deduzir da própria condição humana, algo que seja novo ou jamais ouvido, mas só aquilo que está mais de acordo com a prática. E, para investigar aquilo que respeita a esta ciência com a mesma liberdade de ânimo que é costume nas coisas matemáticas, procurei escrupulosamente não rir, não chorar nem detestar as acções humanas, mas entendê-las. Assim não encarei os afectos humanos, como são o amor, o ódio, a ira, a inveja, a glória, a misericórdia e as restantes comoções do ânimo, como vícios da natureza humana, mas como propriedades que lhe pertencem, tanto como o calor, o frio, a tempestade, o trovão e outros fenómenos do mesmo género que pertencem à natureza do ar, os quais, embora sejam incómodos, são contudo necessários e têm causas certas mediante as quais tentamos entender sua natureza".

O autor expõe seu pensamento com clareza acerca da sua discordância com o pensamento comum da época. Explicando o porquê de não acreditar que as pessoas agem exclusivamente através da razão: "Depois, na medida em que cada coisa se esforça, tanto quanto esta em si, por conservar o seu ser, não podemos de forma alguma duvidar de que, se estivesse tanto em nosso poder vivermos segundo os preceitos da razão como conduzidos pelo desejo cego, todos se conduziriam pela razão e organizaram sabiamente a vida, o que não acontece minimamente, pois cada um é arrastado pelo seu prazer". Para o filósofo, as pessoas não se submetem ao estado por uma análise racional, mas por uma economia de seus desejos, sejam eles medo ou esperança. São as paixões que, em acordo com outras Paixões, encontram vontades comuns que permitem que as pessoas se agrupem em "estados" e, assim, se submetam de alguma maneira a algum sistema. Seja ele monárquico aristocrático ou democrático. "Longe de ser fruto de uma ruptura com a natureza, o estado forma-se no âmbito desta, mediante a dinâmica afectiva, ou passional, que associa ou põe em confronto os indivíduos". "Por isso também, a essência do político é impossível de se confundir com uma qualquer moldura racional de onde e no interior da qual as normas de conduta fossem deduzidas, de modo a imporem-se como condição necessária e legítima da paz e da estabilidade".

Observamos que Spinoza defende uma espécie de sistema económico de gerenciamento dos afectos, tanto por parte dos súbditos, como do Soberano. Esse gerenciamento é subjectivo, e acontece individualmente, com efeitos no colectivo. Cabe, aos súbditos, sentirem sua Potência, a fim de preservar sua vida, e maximizar sua liberdade, bem como o soberano de não impor sistema rígido demais que encurrale seus súditos a ponto de que esses se rebelem. O estado mais "racional", é aquele que consegue entender as demandas da sua população, e promover uma espécie de bem-estar. A paz imposta pelo medo, como ausência de guerra, é sempre temporária. O bem-estar de todos é o que ajuda a manter o estado coeso. Esse sistema é precário, e está sempre sujeito a avaliações e adequações para melhor atender a todos, defendendo, assim, até a manutenção do estado pelo soberano. Spinoza entende o estado como a potência da Multidão, e define, no TP 2/17, os sistemas políticos que podem constituir esse estado. O autor esclarece: "Detém–no absolutamente quem, por consenso comum, tem a incumbência da república, ou seja, de estatuir, interpretar e abolir direitos, fortificar as urbes, decidir sobre guerra e paz etc. E se esta incumbência pertencer a um conselho que é composto pela multidão comum, então o estado chama–se Democracia; mas se for composto só por alguns eleitos, chama–se Aristocracia; e se finalmente, a incumbência da República e por conseguinte, o estado, estiver nas mãos de um só, então chama–se Monarquia". Com isso, podemos concluir o pensamento de Spinoza e entender como a Natureza age sobre/através as potências de todos e como isso influencia o estado e o sistema político.

Os afectos - o desejo, a alegria e a tristeza
Os corpos se individualizam em razão do "movimento e do repouso", da "velocidade e lentidão" e não em função de alguma substância particular (escólio 1 da proposição 13 da parte 2 da Ética), e a identidade individual através do tempo e da mudança consiste na manutenção de uma determinada proporção de movimento e repouso das partes do corpo (proposição 13 da parte 2 da Ética). O corpo humano é um complexo de corpos individuais, e é capaz de manter suas proporções de movimento e de repouso ao passar por uma ampla variedade de modificações impostas pelo movimento e repouso de outros corpos. Essas modificações são o que Espinoza chama de "afecções".

Uma afecção que aumenta a capacidade do corpo de manter suas proporções características de movimento e repouso aumenta a "potência de agir" e tem, em paralelo, na mente, uma modificação que aumenta a "potência de pensar". A passagem de uma potência menor para uma maior é o "afecto de alegria" (definição dos afectos, parte 2 da Ética). Uma afecção que diminui a potência do corpo de manter as proporções de movimento e repouso diminui a potência de agir e tem, em paralelo, na mente, uma diminuição da potência de pensar. A passagem de uma potência maior para uma menor é o "afecto de tristeza". Já uma afecção que ultrapassa as proporções de movimento e repouso dos corpos que compõe o corpo humano destrói o corpo humano e a mente (morte).

Os indivíduos (mentes e corpos) se esforçam em perseverar em sua existência tanto quanto podem (proposição 6 da parte 3 da Ética). Eles sempre se esforçam para ter alegria, isto é, um aumento de sua potência de agir e de pensar, e eles sempre se opõem ao que lhes causa tristeza, ou seja, aquilo que diminui sua capacidade de manter as proporções de movimento e repouso características de seu corpo. O esforço por manter e aumentar a potência de agir do corpo e de pensar da mente é o que Espinoza chama de "desejo" (conatus).

“Não é por julgarmos uma coisa boa que nos esforçamos por ela, que a queremos, que a apetecemos, que a desejamos, mas, ao contrário, é por nos esforçarmos por ela, por querê-la, por apetecê-la, por desejá-la, que a julgamos boa.”
— Espinoza, Ética, parte 3, proposição 9 esc.
As afecções que são atribuídas à "acção" do corpo humano testemunham o aumento de sua potência de agir e de pensar e, por isso, o afecto de alegria sempre impulsiona a actividade. Em contraste, as afecções que diminuem a potência de agir e de pensar (provocando tristeza) testemunham sempre a passividade do corpo humano, são sempre passivas, são "paixões" (do grego pathos, "sofrer uma acção").

Para Espinoza, a ilusão dos homens de que suas acções resultam de uma livre decisão da mente é consequência de eles serem conscientes apenas de suas acções enquanto ignoram as causas pelas quais são determinados, o que faz com que suas acções sejam determinadas pelas paixões. Isso é o que ele chama de "primeiro género de conhecimento", "imaginação" ou "ideias inadequadas" (a consciência de nossos afectos, e a inconsciência do que os determina). O "segundo género de conhecimento" são as "noções comuns" ou "ideias adequadas", que se caracterizam pela consciência do que nos determina a agir. As ideias adequadas sempre são efeitos da alegria, acarretam alegria e impulsionam a actividade, enquanto a imaginação (ideias inadequadas) se caracteriza pela passividade e pelo acaso de causar ou ser efeito da alegria ou da tristeza.

“[...] uma criancinha acredita apetecer, livremente, o leite; um menino furioso, a vingança; e o intimidado, a fuga. Um homem embriagado também acredita que é pela livre decisão de sua mente que fala aquilo sobre o qual, mais tarde, já sóbrio, preferiria ter calado. Igualmente, o homem que diz loucuras, a mulher que fala demais, a criança e muitos outros do mesmo género acreditam que assim se expressam por uma livre decisão da mente, quando, na verdade, não são capazes de conter o impulso que os leva a falar. Assim, a própria experiência ensina, não menos claramente que a razão, que os homens se julgam livres apenas porque são conscientes de suas acções, mas desconhecem as causas pelas quais são determinados. Ensina também que as decisões da mente nada mais são do que os próprios apetites: elas variam, portanto, de acordo com a variável disposição do corpo. Assim, cada um regula tudo de acordo com o seu próprio afecto e, além disso, aqueles que são afligidos por afectos opostos não sabem o que querem, enquanto aqueles que não têm nenhum afecto são, pelo menor impulso, arrastados de um lado para outro. Sem dúvida, tudo isso mostra claramente que tanto a decisão da mente, quanto o apetite e a determinação do corpo são, por natureza, coisas simultâneas, ou melhor, são uma só e mesma coisa, que chamamos decisão quando considerada sob o atributo do pensamento e explicada por si mesma, e determinação, quando considerada sob o atributo da extensão e deduzida das leis do movimento e do repouso [...]”
— Spinoza, Ética, parte 3, proposição 2 esc.
A grande inovação da ética de Espinoza foi que, nela, a razão não se opõe aos afectos, pelo contrário, a própria razão é um afecto, um desejo de encontrar ou criar as oportunidades de alegria na vida e de evitar ou desfazer ao máximo as circunstâncias que causam tristeza, mas o próprio desejo-razão (do mesmo modo que os outros tipos de afectos) não depende da vontade livre, mas de afecções que fogem ao controle do indivíduo porque são modos da substância única infinita, que não tem finalidade nem providência. Em diversas obras Espinoza diz que é nocivo (diminui nossa potência de agir e de pensar) ridicularizar ou reprovar alguém dominado pelas paixões, porque isso não depende da livre decisão da mente. O único modo do homem que se guia pela razão ajudar os outros é, nas palavras de Espinoza: “Não rir nem chorar, mas compreender.”
— Espinoza, Tratado Político
A ética de Espinoza é a ética da alegria. Para ele, só a alegria é boa, unicamente a alegria nos leva ao amor (que ele define como a ideia de alegria associada a uma causa exterior) no quotidiano e na convivência com os outros, enquanto a tristeza sempre é má, intrinsecamente relacionada ao ódio (que ele define como a ideia de tristeza associada a uma causa exterior), a tristeza sempre é destrutiva para nós e para os outros.

O terceiro género de conhecimento - beatitude
Além dos dois géneros citados anteriormente, Espinoza afirma ainda um terceiro, chamado beatitude. Esse conhecimento se caracteriza por compreender, nas coisas singulares, o aspecto da eternidade (sub specie aeternitatis). Seria algo como ver as coisas singulares como inseparáveis dos modos da substância infinita e eterna (Deus), compreendendo que as coisas singulares são elas mesmas eternas, existindo fora do tempo. Esse é um dos conceitos de Espinoza mais controversos e discutidos.

A influência
Spinoza ficou considerado como maldito por muitos anos após sua morte. Quem recuperou a sua reputação foi o crítico alemão Gotthold Ephraim Lessing em seus diálogos com Johann Jakob Reiskei em 1784. Na sequência, o filósofo foi citado, elogiado e inspirou pessoas como os teólogos liberais Johann Gottfried von Herder e Friedrich Schleiermacher, o poeta católico Novalis e o polímata Johann Wolfgang von Goethe.


Da combinação do pensamento de Spinoza com a epistemologia de Immanuel Kant, saíram os "panteísmos" de Johann Gottlieb Fichte, Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling e de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Influenciou os conceitos de Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche e Henri Bergson "vontade de viver", "vontade de poder" e "élan vital", respectivamente. Inspirou o pensador inglês Samuel Taylor Coleridge, bem como os poetas e também ingleses William Wordsworth e Shelley.